Admirável Post Novo - Um desabafo sobre a decepção com Huxley

Os comentários aqui expressos são de minha responsabilidade. Se você leu e gostou do livro, contente-se em xingar-me nos comentários. Se por acaso não leu o livro, cuidado, esse post provavelmente terá spoilers.

Bom, há algum tempo eu buscava um comentado livro. O título era apontado como um dos grandes livros da história, tendo inspirado escritores e, mais recentemente, alguns filmes. O livro se chama "Admirável Mundo Novo"(Brave New World) e ele foi escrito em 1932, por Aldous Huxley. Só no ato de comprá-lo, fiz uma excelente aquisição, se formos entrar no mérito financeiro. Paguei apenas dez reais num livro de 1981, que até dedicatória para uma desconhecida Taninha tinha, rs. Achei incrível. Na verdade, já achava o livro incrível antes mesmo de tê-lo comprado. Decepcionei-me. 
Farei aqui um breve resumo da obra antes de comentá-lo.


A obra aborda um futuro hipotético - não sei até que ponto ela pode ser considerada utopia ou distopia, isso dependerá muito da perspectiva do leitor - onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais de uma sociedade organizada em castas. A sociedade criado por Huxley não possui ética religiosa, conceito de família ou qualquer valor moral que rege nossa sociedade. Qualquer dúvida, insegurança, raiva ou decepção dos cidadãos era dissipada com o consumo de uma droga sem efeitos colaterais chamada "soma". Os indivíduos são gerados biologicamente por meio de inseminação artificial, tendo cada casta suas características físicas e comportamentais modificadas nesse processo. O grau de desenvolvimento da sociedade é incrível e, principalmente, estável. A felicidade é obrigatória por pré-condicionamento a qualquer nível da hierarquia. Até um integrante da casta mais baixa sente-se feliz com sua posição, não desejando estar acima da posição que exerce. Mas, enfim, essa é a parte boa da história. Depois que Huxley descreve sua incrível sociedade, 
o livro começa a desenvolver-se a partir do contraponto entre essa hipotética civilização ultra-estruturada e as impressões humanas e sensíveis de um selvagem que, visto como aberração, cria um fascínio entre os habitantes do "Admirável Mundo Novo". O selvagem, chamado John, nasceu de uma gravidez acidental entre indivíduos desse mundo biologicamente avançado e acabou sendo criado do lado de fora da super-sociedade. Portanto, desenvolveu-se em contato com a religião, ritos como o casamento e sofreu incrível exposição à cultura ocidental (o selvagem cita, em incontáveis pontos da narrativa, trechos de obras literárias).
A proposta do livro é boa e as críticas sociais implícitas que o autor faz são extremamente válidas. Mas, num todo, o livro, sendo analisado como literatura, é quase um fracasso. E isso tem motivos:
Huxley criou um mundo incrível para desenvolver sua narrativa, um cenário realmente fantástico, mas não soube criar um enredo que prendesse o leitor. Ou, se formos mais cruéis, podemos acreditar que ele criou, sim, um bom enredo, mas não teve técnica literária para conduzí-lo de maneira satisfatória. Eu, sinceramente, acredito nessa última opção.
A começar pelo fato de que Huxley faz seu ideal comunista transparecer de maneira ridícula na obra. O personagem principal, Bernard Marx, tem o sobrenome de vocês sabem quem. A principal personagem mulher do livro se chama Lenina. Além de aparecerem, com menor importância, um Sarojini Engels, uma Polly Trotsky, além de uma mistura estranha que, apesar de não ter viés comunista, pegou muito mal também: Darwin Bonaparte. Nada contra as correntes filosóficas do autor, claro. Só não havia necessidade de se estragar tantos personagens com tais nomes. Afinal, que tipo de autor que se respeite criaria um personagem chamado Darwin Bonaparte? Assim, a estética de vários personagens foi jogada no lodo. 
Me parece, por fim, que Huxley gosta de demonstrar suas convicções ideológicas ao leitor. E, justiça seja feita, ele fez isso com a menor delicadeza possível nessa obra.
Pois bem, continuando, algo que também apontaria seria o fato do livro ter mudado de protagonista de uma hora para a outra. O narrador onisciente que acompanhava Bernard Marx e dizia seus sentimentos, pensamentos e desejos mais íntimos simplesmente desaparece. Então, o leitor passa a ser direcionado somente ao Selvagem John, enquanto Bernard Marx se torna um personagem terciário no livro. E isso incomoda. Em determinado momento, Bernard tem uma tremenda crise de personalidade e, nós, leitores, não temos a mínima ideia do que se passa por sua cabeça. Isso porque somos obrigados a acompanhar o Selvagem citando Shakespeare.
A deixa do último parágrafo foi proposital. Pois nada irrita tanto no livro quanto as citações de obras alheias pelo Sr.Selvagem, que, além de letrado, culto e grande estudioso de obras ocidentais, não podia ver nada acontecer que abria a boca para citar Romeu e Julieta, Macbeth e outros. No entanto, essa nada mais é do que uma crítica já apresentada aqui, porém se manifestando de maneira diferente na narrativa - o autor deixando e querendo deixar transparecer suas convicções por meio da obra. Trabalhando de forma direta pra que todos entendam que ele é comunista, evolucionista, revolucionário e fã de Shakespeare.
O mesmo tipo de pequeno detalhe que faz uma obra de Machado se tornar bela, por exemplo, causa desconforto nesse livro. E, se fosse só isso, tudo bem. Mas não são só "pequenos detalhes que incomodam". O modo com o qual Huxley leva a narrativa é massacrante. Do meio do livro em diante, o mesmo se torna chato e pesado. Pelo menos para mim, terminá-lo foi uma tortura.

Se eu o aconselharia a alguém? Sim, aconselharia. É um clássico do século XX e de fato inspirou grandes outras distopias (de longe, melhores do que essa, claro). E não só pelo nome do livro em si. Como já citei antes, há muitas críticas válidas no livro que podem fazê-lo valer a pena. Contudo, eu sinceramente acredito que só quem se cansa da leitura e para de ler o livro em sua metade é que consegue aproveitá-lo da maneira mais saudável. E isso é o que, por fim, chamaremos de ironia huxleyana.

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