Judas, o santo rejeitado

Em primeiro lugar, não sou católico, cristão ou evangélico. Também não sou ateu. E na verdade, minha doutrina religiosa não importa tanto nesse momento. Afinal, o que será colocado em pauta aqui são as condições para a não aceitação de Judas, um dos apóstolos de Jesus, como santo. E para essa interpretação, não é preciso necessariamente ser um fiél. Muito pelo contrário, até porque, crentes tem uma forte tendência ao fanatismo religioso cego, o que inviabiliza uma avaliação mais racional dos fatos.

Bom, o que eu proponho, sem mais delongas, é o método de silogismo aristotélico clássico. E para isso podemos começar com o fato de que "Jesus morreu na cruz para nos salvar", algo que é  na verdade muito repetido por fiéis. Agora, lembremos nós que Judas delatou Jesus e esse ato de traição levou o filho de Deus à cruz, ao sacrifício e, principalmente, à morte. Logo, Judas foi o principal causador da morte de Jesus. Em consequência disso, ele foi também o principal causador de nossa salvação, queiram vocês ou não. Judas é parte integrante de um todo que só conspirou a favor da humanidade. Ora, se não fosse por sua traição, Jesus não teria salvo os homens, isso é tão claro e tão óbvio na bíblia que só sendo manipulado por um pastor não se chega a tal conclusão. Ou você achava que ele só estava alí para pregar a palavra?



Infelizmente a leitura crítica da bíblia ainda é pouco explorada dentre os mais religiosos, o que faz minha colocação parecer um tanto absurda - principalmente entre eles - mas o fato é que, em minha interpretação, Judas foi o mais Santo dos apóstolos. E eu tenho argumentos para defender tal afirmação.
Judas foi o mais ativo, o mais questionador e o menos passivo de todos os discípulos, sendo um dos poucos que, sabendo da popularidade que Jesus tinha entre o povo quando chegou em Jerusalém, acreditava na tomada e na libertação política da cidade, que era, assim como muitas outras, esmagada pelo autoritarismo do Império Romano (que nada mais era que uma multinacional demoníaca da Igreja). Uma visão de um vanguardista para seu tempo, não? O próprio Guevara é considerado até hoje um símbolo por esses mesmos feitos, sendo pouquíssima a diferença de impulso revolucionário entre ele e Judas. Porém, ao contrário da figura de lenda, Judas se tornou o algoz da humanidade. Histórias (na medida do possível) iguais, contadas de maneiras diferentes. Curioso como uma leve distorção no enredo tem o poder de transformar figuras angelicais em demônios, ou vice-versa.
Pois bem, continuando, temos também na mesma bíblia e bem pertinho da confusão da crucificação, as passagens patéticas em que Pedro nega Jesus por três vezes. Um ato não só questionável, como também condenável - e que parece ter passado despercebido. Mas o que interessa é que depois de tal negação, esse mesmo homem é condecorado com o título de Santo! Francamente né... Essa história tem um roteiro que, com o perdão da palavra, só faz sacanagem com seus personagens.
Contudo isso e, sem demagogias, a bíblia tem uma história muito interessante. E conta a vida de um militante que, já naquela época discursava como poucos, tinha uma lábia apuradíssima, discordava da Igreja Romana e do Império Romano com vigor de um revolucionário e, dando alguns créditos à bíblia, tinha uma incrível noção de partilha, amor ao próximo e devoção religiosa. Enfim, mesmo eu tendo muitos argumentos contra ela, ainda assim ela tem meu respeito. Agora, não dar o título de Santidade à Judas foi a maior judaria que a Igreja poderia ter feito a ele.



1 adendo(s):

Marcelo Resende disse...

"Voltou" em grande estilo. Ainda não havia pensado nessa outra negação de Judas por causa da igreja (com "i" minúsculo). Brilhante.