O velho e o legado

Já escreví. E escreví muito, até calejar meus dedos
até extinguir em mim qualquer lampejo
mas escreví tudo sem devoção ou compromisso
tudo saiu naturalmente, na época em que morava naquele cortiço

Escreví romances, músicas, sinfonias e poemas,
falei, já há um tempo atrás, sobre uma garota de ipanema
já encontrei uma cachorra baleia nos confins do sertão
cheguei até a ver um dia, um zepelin gigante no alto de uma construção

Mas não penses que foi tudo
encrenquei-me com muitos amores que tirei desse mundo 
são tantos os sofrimentos por paixões que até perco a conta
é o preço que se paga por brincar de faz-de-conta

Tanto que cometí o erro de apaixonar-me duas vezes por mulheres da vida
Lucíola e Tieta, qual delas seria a mais bonita?
Mas pensando bem, afinal, como ignorar Gabriela?
E aquela moreninha? por anos procurei alguém que fosse igual a ela
Teve também Capitu, de todas a mais dissimulada
em pensar que até hoje lembro-me daqueles olhos de ressaca...

Quantas histórias... Isso sem contar com tudo que já trabalhei nesses tempos
se até sargento de milícias já fui um dia, mas tirei proveito disso sim
comprei as belas terras de são bernardo, uma casa grande com senzala e um tal sítio do pica-pau amarelo
trabalhei tanto que parei de rimar, mas não de escrever.

E das aberrações que vi
nenhuma foi tão estranha e poderosa quanto a do coronel e o lobisomem
nem a feiura de Macabéa ou Macunaíma a superavam
para matar um bicho desses, só com a bravura de um selvagem guarani

Falando em mortes, recordo-me de também ter perdido companheiros 
como quando condenaram Policarpo Quaresma à morte
se ele ainda tivesse deixado um diário com memórias póstumas...
A ele então só nos resta cantar a ópera dos mortos.

Citando-lhe o que um amigo meu sempre diz: que cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável,
aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra,
aquele fato sem explicação que iguala tudo que é vivo num só rebanho de condenados,
porque tudo que é vivo, morre.

Ah, que saudade tenho de quando escrevia
de quando falava de muito longe sobre palmeiras e cantantes sabiás,
de quando tinha fôlego e era espirituoso 
hoje, infelizmente, deixo todo meu legado e nostalgia nas mãos de vocês
pois parece que a tinta de meu lápis acabou.



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