Dia 18 de janeiro, terceiro dia de SiSU e a segunda atualização nas notas de corte foram feitas. Junto com os novos números, uma surpresa: Aproximadamente 14 pessoas que concorrem em Comunicação Social dentro das Políticas Afirmativas na UFRJ passaram dos 700 pontos no ENEM (até o momento). Infelizmente não tenho as estatísticas gerais do SiSU, mas só as desse curso já coloca em xeque o discurso safado da meritocracia universitária. Ora, como uma pessoa oriunda da Rede Pública (e não pertencente a colégios de aplicação, militar ou federal) que faz mais de 700 pontos não pode entrar na universidade? Essa pessoa TEM que entrar!
A cota para o Ensino Público pode não ser vista com bons olhos, contudo, respondam-me: qual o conceito de mérito no vestibular? O mérito que um aluno do São Bento tem em entrar para Medicina é exatamente o mesmo que um aluno do Ciep 434 tem?
Um aluno da rede particular - não necessariamente do São Bento - encontra em seu colégio uma excelente estrutura, material didático de ponta e ótimos professores. Base suficiente para se passar num vestibular. O aluno da rede pública, no melhor dos casos, fica sem dois desses três quesitos. No caso do C.E.Prof Horacio Macedo, recém congratulado com o prêmio de terceiro melhor colégio público do Brasil, tivemos no ano letivo de 2009 a falta de professores de química, história, matemática e sociologia - isso sem contar com professores omissos e faltosos. Fica óbvio então que a dificuldade de ingresso numa universidade será muito maior para esses alunos. Muito mesmo.
Digo isso por já ter conhecido os dois lados da moeda. Eu sei o que é ter Ótica no primeiro ano do ensino médio (no GPI) e o que é não ter Ótica em três anos de ensino médio (no Horacio Macedo). Eu sei o que é ter a disciplina de matemática, química, física e biologia dividida para dois professores (exemplo: biologia 1 + biologia 2 - no GPI) e eu sei o que é ficar um ano letivo inteiro sem nenhum professor química (no Horacio Macedo). Sei o que é estudar num colégio que de fato prepara seus alunos para o vestibular e o que é estudar num colégio que não, definitivamente não prepara pra vestibular - mesmo que o tente, sem sucesso.
Eu não estou reclamando, essa foi a escolha que fiz e quero deixar isso bem claro. O meu objetivo aqui é tentar vos dizer que não há como criar um ideal de meritocracia para dois sistemas de ensino tão diferentes, tão distantes. Quando um aluno do ensino público atinge 700 pontos do ENEM, pode-se dizer que ele atingiu um feito incrível e até pouco esperado dele. Esse é um resultado sensacional para alguém vindo de um Ciep. Agora, quando um aluno da rede particular, mesmo com toda a estrutura que tem, não atinge ou chega perto dos mesmos 700 pontos, algo está errado.
Vamos tomar por exemplo um aluno do Colégio Futuro, situado em Caxias. A mensalidade do colégio gira em torno de trezentos reais mensais. Se formos calcular o que se gasta com um estudante desse colégio em todo o ensino médio, chegaríamos perto dos onze mil reais, isso sem contar com matrícula, material didático, transporte e alimentação. Se formos calcular tudo que citei, certamente a conta passaria dos quinze mil (para três anos de estudo). Se formos levar em consideração que quem frequenta essa escola certamente fez um ensino fundamental particular e que, esse girava em torno dos duzentos reais mensais, o gasto de toda a formação acadêmica dessa pessoa passou tranquilamente os trinta e cinco mil reais (não é exagero, faça as contas). Esse é o preço médio que se gasta para entrar na universidade. Se eu utilizasse um colégio de ponta como o Ph, a conta passaria dos cento e cinquenta mil. A vaga que um aluno sem dúvidas irá conseguir quando passar é, acima de tudo, comprada!
Pois bem, quando um cara que sai dessa máquina vai enfrentar (e, consequentemente, ter melhores resultados que) alguém do ensino público, é no mínimo injusto dizer que houve mérito em sua vitória. Enquanto o ensino não for igual para todos, o uso de cotas deverá sim ser implantado - E o discurso safado sobre o mérito deverá ser mantido somente na seguinte ocasião:
- alunos do ensino particular vs alunos do ensino particular
- alunos do ensino público vs alunos do ensino público
A comparação entre vestibulandos que fazem cursinhos de ponta e vestibulandos que não tem professores no colégio é algo mesquinho e irracional. Infelizmente, ainda temos dentro de nossos costumes reclamar de tudo que não nos dê vantagem - até eu faço isso: depois que o Ministério Público vetou a exclusividade de cotas ao RJ, ampliando-as a todo o Brasil, eu fiquei contrariado, mesmo sendo essa decisão a mais sensata e justa a ser tomada. Seguindo essa lógica do "eu quero me dar bem", estudantes da rede particular têm muita dificuldade de enxergar a extrema diferença de estrutura que eles têm em comparação com o resto do Estado. Defendendo assim a não utilização da política de cotas. Mas o que precisa ser entendido é: os melhores resultados que esses caras do ensino particular frequentemente conseguem está ligado diretamente ao potencial financeiro de suas famílias e o quanto foi investido por ela em seus estudos. É se baseando nessa estrutura feudal de "tem mais quem pode mais" que nossas universidades vivem nessa situação aristocrática de hoje, onde a elite opta - inconscientemente ou não - pela valorização da própria elite.
Quando o Rio de Janeiro apareceu no penúltimo lugar no ranking de educação pública do Brasil (perdendo apenas para o Piauí), poucos da rede particular pararam para pensar no caso. Afinal, essa estatística não faz parte da realidade deles. O que eu gostaria mesmo que fizesse parte da consciência deles é que, pessoas pobres e sem condições de bancar um bom estudo precisam, acima de tudo, de oportunidade. E mantendo o monopólio da elite na universidade nunca daremos oportunidades a esses caras.
Eu estou concorrendo a uma dessas vagas da oportunidade - as Políticas Afirmativas. Se não fosse pelas cotas, eu não chegaria nem perto da vaga que pretendo. Mas tenho certeza de que mereço o ingresso num curso altamente concorrido concorrido como Comunicação Social. Concluí meu ensino médio num colégio público e estudo com excessiva vontade a mais de um ano. O exemplo que dei no corpo do post sobre falta de professores é verdade. No ano de 2010 (um ano após não ter aulas de certas matérias) tive que aprender química na marra. Minha turma não teve nada no segundo ano e, ao chegar no terceiro, peguei uma turma que tinha tido professor. Resultado: eu tinha um buraco de um ano sem matéria comigo. Me esforcei e, com um pouco de sorte, pude suportar a pressão. Em história, matéria que quase não tive aulas no segundo ano também, tive que estudar sozinho em casa. Além de não ter professor, o livro não ajudava nada - o autor não conseguiu em nenhum momento passar o capítulo de Getúlio Vargas sem falar mal dele e também não conseguiu descrever a Revolução Russa sem enaltecê-la - O autor era um comunista de merda, muitas vezes unilateral. Isso me incomodava muito. Tive de pegar outro livro de história com uma universitária que outrora estudara no Colégio Pedro II. Mesmo com todo o esforço, tudo seria em vão caso não tivesse essa cota. No atual momento ainda estou dentro da disputa por uma vaga na universidade e com esperanças de ingresso. Mas se eu entrar, serei mais um dos que não o fizeram por mérito? Mesmo com todo o sufoco que passei no Estado, com a ótima nota no ENEM (maior do que muitos do ensino particular) e a dedicação ao vestibular?
Mérito... essa palavra teria muito mais credibilidade principalmente se ela não saísse só da boca de quem tem estudo e conta bancária suficiente para tê-lo.
1 adendo(s):
Foi Perfeito em suas palavras de novo Douglas.
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