Agora é Faca na Caveira e CPI na geladeira!

Se você ainda não viu o Tropa de Elite 2 e não quer estragar seu filme, não aproxime a vista deste post, pois ele contém uma ZONA DE SPOILERS!!! Mas não esqueça de, após assistir o filme, voltar aqui, ler o post, discordar de tudo que eu disse e meter o pau nos comentários lá em baixo.

Quem diria, ein, que as milícias surgidas lá na década de 30 com Hitler dariam tanta dor de cabeça. E eu não estou falando do exército vermelho de Trosky anos depois também não. Estou falando de Rio das Pedas 1979, o primeiro caso de milicianos no Rio de Janeiro, que acaba de inspirar mais um clássico do cinema nacional. O filme já tem mais de 6 milhões de bilheteria e só perde para "Dona Flor e seus Dois Maridos" (?).
Enfim, todo o sucesso do filme é justificado, a má notícia é: não é justificado por causa dele, e sim pelo primeiro! Isso mesmo, pelo primeiro. Eu irei explicar: Os dois filmes são distintos e se relacionam de maneira branda em termos de roteiro. No primeiro filme, tivemos cenas clássicas de violência/guerra urbana, fomos inseridos no mundo de aventuras do Bope e vimos seu potencial fascista num filme direcionado para a classe média: O primeiro filme criminaliza sem piedade os moradores de favela e, por que não, as próprias favelas. Isso fica claro no filme. Contribui de forma consistente para que o espectador tenha mais repulsa do cara que mora no morro, que fica caraterizado pelo sujeito que vende droga e queima dono de ONG em pneu. O golpe válido desse filme é o lance das drogas, que é repudiada pelo herói. Mas aí é aquilo: será que algum playboy deixou de fumar maconha depois do primeiro filme? Não precisa nem responder.


O que eu quero dizer é: o trailer do segundo filme vendia o mesmo produto do primeiro filme, com o bope gritando "Caveira", tiro comendo, Caveirão invadindo favela e tudo o mais. Contudo, o segundo filme se revelou diferente, numa trama muito mais ousada e íntegra do que o primeiro. Todo o sucesso do segundo filme foi, antes de nada, alavancado pelo nome que ele tem. Ponto final.
Aí é que entra o brilhantismo do segundo filme. O inimigo agora não só é outro, como é também invisível, está por todos os lados e em lugar algum. O bandido do segundo filme usa terno e gravata, tem ligações com os bandidos que usam farda azul e também com os que estão lá em cima no morro. Nesse contexto entra nosso herói, o então Capitão Nascimento agora é, 14 anos depois do primeiro filme, Coronel Nascimento, que é expulso do Bope e "cai pra cima, parceiro". Dessa forma ele vai parar como Subsecretário de Inteligência na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. Aí nós temos um Wagner Moura de cabelos grisalhos, divorciado, extremamente perturbado e cansado, mas não abatido. A maturidade desse personagem aparece em não mais distribuir porrada gratuitamente como no primeiro filme. Ele agora não tem tanta pilha como antes - o papel da pilha é do Matias - mas se tornou o Batman sem máscara do Rio de Janeiro. O cara é um justiceiro total, age sozinho e sua devoção maior é acabar com o sistema. Ele agora sabe que descer tiro em traficante não adianta nada. Ele sabe que não é dando tapa na cara de estudante maconheiro que ele irá mudar o RJ, ou melhor, ele agora sabe que não é só o estudante maconheiro que financia o tráfico de drogas. No Tropa de Elite 2, o Nascimento entendeu o sistema. Eis a diferença.
E é nesse ponto que entra a sacada GENIAL dessa trama: O herói não tem forças para acabar com o sistema. Ele termina o filme derrotado, expulso da polícia e de qualquer cargo público. Por mais que ele seja foda, ele declara guerra ao sistema mas não consegue vencê-lo. E essa não é a pitada de realismo convincente do filme, isso é o Nascimento nos mostrando que quem tem o poder para acabar com isso tudo somos nós, e não ele! Esse personagem levou dois filmes nos apresentando o sistema e onde está o suposto câncer dentro dele, agora é preciso combatê-lo. E esse dever será nosso!
Mas aí entra a minha pitada de realismo convincente: lembra a história de que maconheiro não deixou de usar droga depois do primeiro filme? Então, o que você acha que mudou na cabeça da massa de manobra eleitoral depois desse segundo? ... Novamente, nem precisa responder.
Agora eu vou puxar um saco do Padilha, que fez um belíssimo filme. O roteiro é fantástico, a história dá um banho no primeiro filme e a atuação de alguns atores - não só do Wagner Moura - é monstruosa. O cara que faz o Rocha também dá um show e não só ele como todo o desenvolver da história vai mexendo com o seu emocional, e isso é o que falta em alguns filmes: te tocar (não necessariamente com romances proibidos e paixões avassaladoras). Eu to falando de tocar de medo, raiva, angústia e tensão. E isso não acontece no primeiro filme. A grande função do primeiro filme, em minha opinião, se tornou a apresentação de personagens, que torna dispensável uma outra apresentação no segundo (Isso te dá mais espaço para trabalhar com a trama). E a proximidade que o espectador criou com o personagem desde o primeiro filme acaba comovendo, como quando acontece a morte do Matias, por exemplo. O cara era um idealista, honesto, um universitário com sede de justiça e que queria ser advogado. Enfim, você só tem esse resultado de insatisfação - por parte do espectador - com a morte de um coadjuvante quando esse mesmo espectador já o conhece previamente, tendo assim supostos laços com ele.
De resto, eu só preciso citar aquela cena apoteótica do deputado apanhando na Blitz do Nascimento. Aquilo alí, amigo, é a vontade nua e crua do povo brasileiro refletida nas telas de cinema. Essa cena não só não é o alívio de tensão do filme como também o momento de catarse máxima, amigos. Ela faz o cinema explodir! Eu cheguei a conclusão que ver político safado tomando porrada é uma das coisas mais sublimes que meu instinto animal pode vivenciar. Eu acho que se toda semana um político apanhasse assim eu não precisaria nem me alimentar mais - O que não é um crime de moral, afinal, não gosto do pessoal dos direitos humanos e político ladrão nada mais é do que um bandido qualquer, porém com representação no poder público. Mas o que me deixa triste mesmo é saber que a única oportunidade que temos para dar uma surra num cara desses é nas urnas, e isso também nunca irá acontecer - Pensando nisso, considero a introdução dessa cena perfeita. Ela tira o político da condição de Vossa Excelência, como se não fossem mais os intocáveis. O que seria o ideal para nós, já que toda CPI por aqui termina ou em pizza ou dentro da geladeira. 
Enfim, essa introdução é uma reflexão que transcende o real, mas que vive gloriosamente em minha cabeça, tanto que eu a guardei para finalizar o post:
 "Se a policia conseguisse tratar politico corrupto como trata bandido, a coisa ia ser muito diferente."

2 adendo(s):

Mariana Fontes disse...

Gostei do post.
Só não gostei do '"Dona Flor e seus dois maridos" (?)'
Soou pra mim com um certo ar de desdém.
De qualquer jeito, boas palavras!

Marcos Reis disse...

AHHH "meter o pau" VACILÃO!

Eu não posso comentar muito pq fiz parte do desenvolvimento desse post enquanto dentro de um EcoSport, porém, posso discordar de uma coisa:

Sempre dissemos que nosso país não melhorará com um governante com os ideais certos, mas será uma revolução cultural que fará o próprio povo refletir e criar reflexo no cenário político. A mudança é lenta mano, nós falamos de 191.971.506 cabeças brasileiras. Mas é notável que o efeito Tropa2 não está apenas em Tropa2, está se espalhando, tornando-se comum.
E nem quero que alguém termine de assistir o filme e chame geral pra combinar uma iniciativa contra as milicias, mas se o cara pensa "pode crer, dá pra fazer diferente" já é vitória do filme/texto/novela/plastiquinhoamassadoquevemdentrodebala.